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Glossário

Identidade de gênero

É como cada pessoa entende o(s) próprio(s) gênero(s) ou sua ausência. Por exemplo, um homem tem a identidade de gênero homem porque essa palavra faz sentido para ele. Cada pessoa pode ter razões diferentes para se identificar de certa forma.

O termo "identidade de gênero" inclui mulher, homem e outros gêneros, mas nem toda identidade de gênero é um gênero. Por exemplo, agênero é uma identidade de gênero usada por pessoas que não têm nenhum gênero. Assim, agênero é uma identidade de gênero, mas não é um gênero em si.

O que é não-binárie?

É uma pessoa que não é nem sempre, somente e fortemente mulher ou homem. Pode ser alguém que não é nenhum dos dois, que sente ter mais de um gênero, ou que se conecta apenas em parte com ser homem ou mulher.

Muitas pessoas se classificam apenas como não-binárias em questão de gênero, mas há muitos outros termos mais específicos. Por exemplo:

  • Agênero

    Pessoa que não tem gênero, ou que tem alguma experiência comparável com a de ausência de gênero.

  • Gênero-fluido

    Pessoa cujo gênero muda com o tempo. Por exemplo, alguém que em alguns dias se sente homem e em outros se sente mulher.

  • Poligênero/multigênero

    Pessoa que tem mais de um gênero, seja ao mesmo tempo ou de forma alternada (assim também se encaixando em gênero-fluido).

  • Demigênero

    Pessoa com uma ligação parcial com uma identidade de gênero. Pode sentir que tem uma versão mais fraca de certo gênero, ou querer dar destaque a um entre vários gêneros. Exemplos: demimulher, demiagênero.

  • Aporagênero

    Pessoa que tem um gênero, mas esse gênero é diferente de mulher, homem ou qualquer gênero entre esses dois.

Pessoas não-binárias, e outras que se sentem fora do binário mulher/homem mas não se chamam de não-binárias, têm lutas políticas em comum.

Porém, identidades mais específicas também têm suas particularidades. Estas pessoas têm o direito de usar termos que expliquem suas vivências além de só “estar fora do binário homem/mulher”.

O fato de “não-binárie” ser um termo grande e muito usado não é motivo para fazer piada ou atacar pessoas aporagênero, poligênero, agênero e outras.

Gênero imposto ao nascer

Na maior parte do mundo, é obrigatório registrar bebês que recém nasceram com um campo de "sexo" com base nas suas genitálias. Isso costuma influenciar como a criança vai ser tratada e criada: como alguém que crescerá para ser homem ou mulher. Esse é o chamado gênero (ou sexo) imposto ao nascer.

Pé de um bebê recém-nascido com pulseira de identificação rosa

Modalidade de gênero

É a forma de descrever a relação de alguém com o gênero que foi imposto ao nascer. Transgênero e cisgênero são as modalidades de gênero que tendem a ser mais conhecidas.

Transgênero

Pessoa cuja identidade de gênero não está completamente de acordo com o gênero imposto ao nascer.

Alguns termos mais específicos dentro de transgênero:

  • Transfeminine

    Pessoa em que o "sexo feminino" não foi imposto ao nascer (na maioria dos casos), mas cuja identidade tem relação com feminilidade ou com ser mulher. Inclui mulheres trans e algumas pessoas não-binárias.

  • Transmasculine

    Pessoa em que o "sexo masculino" não foi imposto ao nascer (na maioria dos casos), mas cuja identidade tem relação com masculinidade ou com ser homem. Inclui homens trans e algumas pessoas não-binárias.

  • Transneutre

    Pessoa com identidade ou transição em direção à neutralidade de gênero.

  • Outros termos transicionais menos comuns incluem: transandrógine, transouterine e transxenine.

Cisgênero

Pessoa que se identifica com o mesmo gênero que foi imposto a ela ao nascer e que não sofreu prejuízo por esta questão. É quem está dentro do que a sociedade espera em modalidade de gênero.

Cisdissidente

Termo que inclui qualquer pessoa que não seja cisgênero. A maioria das pessoas prefere usar termos mais específicos para elas mesmas, como transgênero, mas o termo cisdissidente é útil para incluir outros termos em contextos relevantes.

Isogênero

Pessoa que não se considera cisgênero ou transgênero. Isso pode acontecer por diferentes motivos, como:

  • Ser uma pessoa não-binária com uma conexão parcial com o gênero imposto a ela ao nascer, e que portanto não se sente incluída e/ou confortável com a ideia de ser transgênero;
  • Ser uma pessoa não-binária que, mesmo não se identificando nem parcialmente com o seu gênero imposto ao nascer, considera que o termo transgênero carrega conotações ou expectativas indesejadas (como pessoas sem gênero que consideram o termo transgênero muito associado com ter gênero);
  • Ser uma pessoa que desobedece expectativas de gênero, mesmo sendo homem ou mulher, e que por isso não se sente confortável se dizendo trans ou cis mesmo que as definições mais populares de um desses termos tecnicamente inclua a forma com a qual se identifica.
Ilustração de uma pessoa barbada de coque, sorrindo, cercada de símbolos de gênero

Expressão de gênero

É como alguém se autoidentifica com base em roupas, acessórios, jeito de se mover, mudanças no corpo, como pede para ser tratada, etc.

Nem sempre a expressão de gênero “combina” com a identidade de gênero. Por exemplo, há homens que consideram suas expressões femininas.

Assim como existem vários gêneros, também existem várias formas de categorizar expressão de gênero: feminina, masculina, neutra e andrógina são algumas. Também há pessoas que preferem não categorizar suas expressões de gênero de acordo com termos associados com gênero.

Linguagem pessoal ou tratamento gramatical

São as palavras que devem ser usadas para se referir a uma pessoa em referência a gêneros gramaticais (muitas vezes referenciados como "feminino", "masculino" ou "neutro", embora seja recomendável especificar tratamentos de formas mais diretas). Por exemplo, algumas pessoas querem ser chamadas de ela, amiga e professora, outras de ele, amigo e professor, e outras preferem formas diferentes, que saem da língua padrão, como elu, amigue e professore.

Ilustração de três pessoas rotuladas “Ela”, “Ele” e “Elu”

Geralmente, pessoas expressam suas linguagens pessoais utilizando apenas o pronome pessoal (como ela, ele ou elu), mas também quem especifica outros elementos. Por exemplo, caso alguém diga que sua linguagem pessoal é “ê/elu/e”, provavelmente significa que a pessoa está utilizando o modelo “artigo/pronome/final de palavra”. Ou seja:

  • Artigo

    Ao invés de dizer “a colega” ou “o colega”, deve-se dizer “ê colega” para se referir a alguém que tem o artigo “ê”.

  • Pronome

    Ao invés de utilizar "ela" ou "ele" para substituir o nome da pessoa, é assim que se fala sobre alguém que indica ter o pronome “elu”:

    • Elu é legal.
    • A maçã é delu.
  • Final de palavra, que também pode ser chamado de flexão ou terminação

    Ao invés de usar palavras como “uma”, “querida”, “um” ou “querido”, deve-se usar “ume” e “queride” para quem indica o final de palavra “e”.

Site Meu conjunto: o conjunto de linguagem ê/elu/e com a pessoa de nome Marinette e exemplos de frases
Site para criar conjuntos de linguagem personalizados

Neolinguagem

Refere-se a quaisquer elementos de gênero gramatical não inclusos oficialmente na língua portuguesa padrão. A neolinguagem serve para:

  • Linguagem genérica

    Haver uma forma não marcada de se referir a pessoas hipotéticas ou desconhecidas. Exemplo:

    • Ê brasileire precisa lutar pelos seus direitos.

    Referir-se a grupos de gênero misto (inclusive se forem somente homens com o conjunto o/ele/o e mulheres com o conjunto a/ela/a), sem priorizar o tratamento associado a homens (o/ele/o e palavras derivadas, como amigo ou professor). Exemplo:

    • Todes es alunes estão presentes em sala.
  • Expressão pessoal

    Permitir que pessoas com diversas experiências não-binárias ou dissidentes de gênero se expressem além dos gêneros gramaticais comumente associados com feminilidade e masculinidade. Exemplos:

    • -/elu/e, como em (“professore esqueceu o caderno delu aqui”) (o traço simboliza a ausência do elemento, do artigo neste caso)
    • y/ély/-y, como em “y professory esqueceu o caderno dély aqui” (algumas pessoas enfatizam que o último elemento é um final de palavra usando o hífen antes dele)
    • xe/eld/e, como em “xe professore esqueceu o caderno deld aqui”

Vale lembrar que “neolinguagem” é similar ao termo "linguagem neutra", porém é menos ambíguo e não carrega a conotação de neutralidade. Afinal, neolinguagem não é mais neutra do que os gêneros gramaticais ditos "femininos" ou "masculinos", que também podem ser reivindicados por pessoas de quaisquer expressões ou identidades de gênero.

Transição

É o conjunto de mudanças que uma pessoa faz para se sentir mais alinhada com sua identidade e/ou expressão de gênero. Pode incluir:

  • Processos legais

    Mudar o nome e/ou o campo “sexo” nos documentos (a chamada retificação).

  • Processos sociais

    Pedir para ser tratade com outra linguagem pessoal, por outro nome e por outro(s) termo(s) de identidade de gênero.

  • Processos físicos

    Sociais: mudanças em vestuário, acessórios, maquiagem e expressão corporal.

    Corporais: terapia hormonal e cirurgias para modificar características sexuais.

Ninguém precisa passar por algum destes processos para se considerar não-binárie ou transgênero, e eles não são exclusivos de pessoas cisdissidentes. Porém, são um fator comum o suficiente para ser levado em consideração ao fazer planos que envolvem pessoas não-binárias (ou cisdissidentes num geral).

Intersexo

Círculo roxo sobre fundo amarelo, símbolo da bandeira intersexo

Algumas pessoas naturalmente nascem (ou desenvolvem a partir da puberdade) características sexuais que não são consideradas "típicas" dentro de uma visão binária de sexo. Por exemplo:

  • Níveis de estrogênio e/ou testosterona fora dos padrões esperados;
  • Cromossomos sexuais diferentes de quem é só XX ou só XY, como XXY ou XXX;
  • Genitálias que divergem do padrão vagina + vulva com clitóris de tamanho médio ou testículos visíveis + pênis de tamanho médio.

O termo intersexo cobre dezenas de variações, as quais podem ou não estar "no meio" dos sexos "típicos". Experiências intersexo não devem ser encaradas como uniformes em questões como a forma que foram registradas ao nascer, as características sexuais que possuem ou as imposições sociais de determinados gêneros em cada etapa de suas vidas.

Pessoas intersexo podem ter qualquer modalidade ou identidade de gênero. Nem toda pessoa intersexo é não-binária.

Mesmo assim, há questões comuns a estes dois grupos. Algumas delas:

  • O pânico moral contra corpos fora do padrão em espaços separados entre mulheres e homens;
  • Os padrões de beleza que impõem padrões de corpos extremamente ‘femininos’ ou ‘masculinos’ como os mais belos/atraentes;
  • A dificuldade social em reconhecer corpos de pessoas intersexo e não-binárias como coerentes com as suas identidades de gênero.
Pessoa sorrindo à beira de um rio, segurando a bandeira intersexo aberta atrás de si

Cissexismo ou cisnormatividade

Referem-se à opressão e à norma social que tratam corpos e identidades cisgênero como o jeito natural, ideal ou verdadeiro de ser.

  • Exemplos comuns
    • Achar que o gênero imposto ao nascer sempre foi o “gênero original” de uma pessoa cisdissidente;
    • Presumir ou validar o gênero de alguém só pelo quanto a pessoa “parece” um homem ou uma mulher cisgênero;
    • Montar bancos de dados que não preveem que alguém precise mudar campos de nome ou gênero.
  • Formas mais graves
    • Violência física, verbal ou sexual contra alguém por ser cisdissidente;
    • Leis que punem quem se veste, ou pede para ser tratade, de um jeito que não combina com o campo ‘sexo’ em seus documentos.

Exorsexismo ou binarismo de gênero

Referem-se à opressão e à norma social que só reconhece mulher e homem como gêneros possíveis, tratando-os também como "opostos" que não podem ser experienciados ao mesmo tempo.

Exorsexismo é um subtipo de cissexismo: toda instância de exorsexismo é uma consequência do cissexismo, mesmo quando perpetuada por alguém cisdissidente.

  • Exemplos de exorsexismo
    • Dizer que os únicos "gêneros de verdade" são mulher e homem, que todas as pessoas podem ser categorizadas corretamente em um destes gêneros;
    • Generalizar pessoas não-binárias, acreditando que nenhuma pessoa não-binária faz transição física ou que todas as pessoas não-binárias aceitam qualquer linguagem pessoal;
    • Acreditar que as opções "feminino" e "masculino" são suficientes em banheiros, formulários de cadastro ou documentações.

Nota

Este glossário explica só os termos mais comuns em textos sobre a defesa dos direitos de pessoas não-binárias, passando uma noção básica acerca do que é a não-binaridade e questões acerca disso.

É possível se aprofundar mais, fique à vontade:

  • Vocabulário usado em círculos NHINCQ+ inclusivos

    Lista mais longa de palavras sobre heterodissidência, cisdissidência e assuntos parecidos.

  • Glossário: Termos Sobre Gêneros, Sexualidades, Romanticidades, Corporalidades, Feminismo, Não-Monogamia, Preconceitos

    Um pouco desatualizado, mas tem mais sobre corpo e tipos de preconceito.

  • Isso é disforia de gênero, PSI

    Site que explica o que é disforia de gênero e ajuda a pessoa a entender se passa por isso.

  • Orientando.org

    Site que lista e explica várias identidades de gênero, orientações e assuntos parecidos.

  • Wiki Diversidades

    Vários artigos sobre identidade de gênero, orientações e assuntos relacionados.

Fontes utilizadas nas informações dadas